Traição e Infidelidade

Uma das problemáticas que atendo com frequência é a da infidelidade, seja em consulta com casais ou consultas individuais. E normalmente surgem muitas perguntas e dúvidas. Onde se traça a linha entre o que é ou não uma traição? Uma pessoa que já traiu é alguém que vai trair novamente? É ou não possível uma relação sobreviver a esse acontecimento?

Em primeiro lugar, é preciso definir a infidelidade. É perfeitamente natural, e até saudável, que os elementos de um casal tenham pensamentos ou até fantasias com terceiros, tanto nos homens como nas mulheres.
Se essas fantasias forem muito recorrentes e intensas, de forma a ocuparem grande parte do tempo da pessoa, não se pode considerar uma traição, mas poderá ser necessário reflectir sobre o que possa estar na origem do que parece ser uma insatisfação permanente. Ainda assim, uma das coisas que costumo dizer é “no pensamento tudo pode acontecer”, sem que isso signifique falta de amor pelo outro e muito menos uma vontade concreta de passar ao acto. Contudo, também não é só no contacto físico que a traição existe. Há situações de flirt (principalmente quando este é constante e repetitiva) que, mesmo que não tenham desenvolvimento, constituem uma infidelidade, na medida em que o respeito pelo(a) parceiro(a) está a ser claramente comprometido.

Depois também se pode considerar que existem infidelidades “mais ou menos graves”, que se distinguem pelo grau de premeditação, pelo número de vezes em que se repetiu, ou por ser com uma ou várias pessoas diferentes. Em qualquer dos casos, uma traição “menos grave” pode ser legitimamente imperdoável para o(a) parceiro(a).
Uma traição que “não significou nada” também não deixa de ser uma traição. É verdade que o envolvimento emocional com um terceiro pode ser muito mais devastador do que um relação puramente física, mas para quem é alvo de um desgosto amoroso, o sofrimento é igualmente grande.
Aliás, uma infidelidade, é por norma uma ferida difícil de suportar, que gera sentimentos de revolta, angústia, decepção, vergonha e acima de tudo, um abalo na confiança pelo(a) parceiro(a) que é um dos principais pilares de uma relação.

Quanto à questão “infiel uma vez, infiel sempre”, também não é linear. Perdoar traições que se vão repetindo e descobrindo sucessivamente ao longo de uma relação, diz tanto do traidor como do traído, pelo que é necessário intervir junto da pessoa no sentido de reforçar o seu amor próprio e de a ajudar a não permanecer num funcionamento autodestrutivo. Por outro lado, também há “traidores compulsivos” que pedem ajuda profissional, por não compreenderem qual o motivo de sentirem que amam o(a) parceiro(a) mas mesmo assim terem uma necessidade constante de seduzir. Nestes casos, não é incomum que uma fragilidade no amor próprio também esteja na origem e que, portanto, a única forma da pessoa se sentir valorizada é com a constante confirmação de quem é desejada por outros.
E por fim, claro que também há os que não sentem qualquer culpabilidade e acham que não estão a fazer nada de errado, o que se poderia denominar de “infiéis crónicos”.
Agora, o facto de alguém já ter traído, não significa que o vá fazer novamente.

Posto isto, podemos passar ao úlitmo ponto que referi: é ou não possível uma relação sobreviver a uma traição? A resposta é: depende. Sim, nuns casos é possível e noutros não. O contexto, as circunstâncias, a personalidade de cada um e principalmente os sentimentos que se geram, acabam por determinar a conclusão.
Os estudos indicam que há vários factores que podem estar na base de se ultrapassar uma infidelidade, como por exemplo a durabilidade da relação. Quanto mais longa for a relação, maior a probabilidade da situação ser superada. Mas há muitos outros factores que, conjugados, ajudam a encontrar uma resposta. O que posso adiantar é que conheço casais em que a infidelidade abalou de forma irreversível a relação e, outros, em que essa crise conjugal acabou por ser ultrapassada, a confiança restabeleceu-se e permanecem felizes. Isto significa que não existem verdades absolutas nem formas certas ou erradas de lidar com este tema. Cada caso é um caso, cada pessoa é única, cada relação tem uma dinâmica própria.

Quando as pessoas desabafam com os de fora (amigos íntimos ou familiares), têm de imediato acesso uma série de opiniões acerca do assunto e sobre o que deveriam ou não fazer. Mas é preciso frisar que, por melhor que seja a intenção em ajudar, muitas vezes as respostas são baseadas em reacções emocionais pela relação de amizade ou em visões generalizadas que vão ao encontro das suas próprias experiências de vida. Um profissional pode ajudar a que, de uma forma isenta, a pessoa ou o casal encontrem o caminho a seguir.

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